Tributo à Deusa Caissa

Por Hindemburg Melão Jr.

Lá estava eu, passeando por um lindo jardim, quando avistei uma mulher de aspecto deslumbrante. Era alta, de corpo perfeitamente modelado, com olhar calmo, tranqüilo e penetrante... Ela estava sentada, de costas para um arco-íris que se formava no céu. Eu me aproximei... e percebi que ela tinha um tabuleiro de Xadrez à sua frente.

Quando cheguei suficientemente perto, ao ponto de minha presença tornar-se notória, ela desviou o olhar do tabuleiro por um instante, num gesto suave e delicado. Olhou em meus olhos por alguns segundos e sorriu para mim, ao mesmo tempo em que fazia uma inclinação com a cabeça, como intentando cumprimentar-me.

Retribui ao gesto, inclinando-me cortesmente, tomando e beijando delicadamente o dorso de sua mão. Também não pude deixar de elogiar sua beleza. Com isso, consegui dela mais um sorriso, dessa vez ainda mais encantador. Ela me agradeceu pela lisonja e me perguntou se eu jogava Xadrez. Eu respondi que sim. Então ela me convidou para jogar uma partida. Agradeci e aceitei o convite.

Pela abertura, já percebi que ela jogava bem... A meu ver, a partida estava equilibrada até que, no lance 22, ela deu início a uma combinação extraordinária! As complicações eram incalculáveis, de modo que só me dei conta do que estava se passando quando chegamos ao lance 36. A essa altura, estávamos na posição do diagrama abaixo.

Eu tinha as Pretas. Enquanto ela pensava no que jogar, eu já tinha encontrado 2 maneiras diferentes para ela ganhar... J Tanto jogando Ta8 como Bf3, ela venceria sem dificuldades. Mas, no fundo, eu ainda alimentava alguma esperança de que ela errasse, porque o Rei dela estava muito exposto, numa situação em que um pequeno erro pode ter graves conseqüências.

Finalmente ela fez o lance... pegou na Torre de ·b4· e entregou-a em ·b7·... Tomei um grande susto, mas ao mesmo tempo foi um alívio, porque, na minha avaliação, esse lance não era uma das alternativas ganhadoras. Não encontrei outra resposta senão comer a Torre oferecida... Então ela seguiu me entregando o Bispo, em ·g6·. Não tendo outra coisa a fazer, segui comendo o Bispo também... Mal completei meu lance e ela prosseguiu jogando a Dama em ·g8·, dando xeque... Novamente só me restava uma alternativa plausível, que era comer o Cavalo que ela deixou pendurado em ·f5·... Ela prosseguiu jogando a Dama em ·g4·, com xeque, e fui com o Rei para ·e5·... Ela jogou a Dama em ·h5·, e a melhor alternativa que encontrei foi cobrir com a Torre, colocando-a em ·f5·. A essa altura (ver diagrama) eu tinha 3 peças ligeiras e um Peão de vantagem, além disso, meu Rei estava mais protegido que o dela... Foi quando julguei que minha posição estava empatada, porque o melhor que ela podia fazer era dar xeque-perpétuo, com a manobra Dh2-h5-h2-h5 etc.

Ela prosseguiu avançando o PBR a ·f4·, que considerei um típico lance de desespero e comi o Peão com o Bispo. Pensei com meus botões: ·Ela desperdiçou sua última oportunidade de empatar... agora as peças dela estão acabando... em pouco tempo ela terá que se render...·

Então veio a grande surpresa! Ela comeu meu Cavalo com a Dama, dando xeque! Não me restava outra coisa senão comer a Dama... Então ela deu o golpe de misericórdia! Entregou a Torre em ·e4·, dando xeque... Eu comi... Então ela me olhou com grande piedade, e avançou o PD uma casa... me dando mate! O posição é impressionante! E toda a seqüência foi forçada! (ver diagrama da posição final)

Ela me entregou todas as peças, numa combinação de 9 lances, conservando somente um humilde Peãozinho, com o qual fulminou meu Rei... Este se encontrava rodeado por peças ·amigas·, que nada faziam para protegê-lo e ainda entupiam seus caminhos de fuga! Estendi a mão, para cumprimentá-la, e lhe perguntei:

_ Qual é o seu nome? _ E antes que ela me desse a resposta, acrescentei: _ Você joga muito bem! Essa foi a combinação mais bonita que eu já vi!

_ Obrigada. _ disse ela em tom suave e sereno. E complementou: _ Meu nome é Caissa.

Era a deusa Caissa, ·em carne e osso·, a musa inspiradora do Xadrez, a responsável por todas as idéias, todas as combinações, todos os planos... por tudo que acontece de genial e de inusitado no Xadrez... Embora eu tivesse sido derrotado de maneira tão contundente e devastadora, sentia-me feliz por dois motivos: a partida tinha sido muito bonita e eu tive a oportunidade de conhecer a inspiradora de todos os mestres. Pedi a ela um revanche, ao que ela recusou gentilmente, com um doce sorriso... A essa altura, chegou um homem atarracado, com olhar seco e duro, movendo-se desengonçadamente... Aproximou-se de nós e perguntou:

_ Por que perdem tempo com esse jogo estúpido? Não têm nada mais importante para fazer?

Tive ímpetos de pular sobre ele e esmurrá-lo! Mas me controlei e me limitei a olhar para ele com desprezo... Ela, por sua vez, deu-se o trabalho de responder:

_ O Xadrez não passa de um punhado de tocos de pau, dispostos sobre uma tábua quadriculada, situada entre duas criaturas incompreensivelmente absortas, que, dominadas por uma espécie de autismo, desperdiçam inutilmente seu tempo, olhando para esse ·brinquedo· sem graça, enquanto o mundo ao seu redor pode desmoronar sem que se apercebam disso... Essa é a interpretação do homem vulgar, insensível e apático _ incapaz de enxergar as essências, que se conforma com uma visão superficial das coisas e se deixa seduzir pelas aparências de outras atividades menos belas e eloqüentes.

Para o homem mediano o Xadrez é um mero acessório, útil tão somente por que contribui para desenvolver diferentes faculdades mentais, melhorando o desempenho escolar das crianças, acentuando a acuidade mental dos adultos e preservando por mais tempo a agilidade mental dos idosos.

Porém, para o homem espirituoso, criativo e empreendedor, o Xadrez é uma das mais ricas fontes de prazer, um meio no qual se encontram elementos para representar as mais admiráveis concepções artísticas, um campo pelo qual a imaginação pode voar livremente, produzindo, com encantadora beleza, idéias deliciosamente sutis e originais.

O Xadrez é uma das raras e preciosas atividades em que o homem pode explorar ao fundo suas emoções, atingindo estados de prazer tão sublimes, tão ternos, tão intensos, que só podem ser igualados pelas sensações proporcionadas pelo amor e pela música.

Ouvindo isso, sem ter como responder à altura, ele limitou-se a sair, com seu jeito rude, caminhando pesadamente... Todo desajeitado...

Por alguns instantes tive pena dele... Afinal, se ele não joga xadrez, significa que está privado de um dos maiores prazeres da vida.

Depois que ele partiu, ela me olhou com ternura, sorriu mais uma vez, e foi esvanecendo-se diante de meus olhos... até desaparecer por completo...

Fiquei só, diante do tabuleiro... Ainda permaneceu um suave rasto de perfume no ar... e a agradável sensação de ter sido coadjuvante na criação de uma belíssima obra de arte!


Nota: a posição do primeiro diagrama representa um problema composto por Conrad Bayer, que obteve o primeiro prêmio “Era”, em 1856.

 

 
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