Oráculo


Pergunta

--------Mensagem original-----
De: san-x@uol.com.br <san-x@uol.com.br>
Para: sigma.2000@sti.com.br <sigma.2000@sti.com.br>
Data: Terça-feira, 9 de Maio de 2000 17:56
Assunto: Pergunta para o Oráculo!!
Caro Piu-Piu,

Tenho uma dúvida enxadrístico-teológica que me intriga há algum tempo. Suponhamos que em um determinado ponto da existência etérea, Deus (Yaweh) resolva jogar xadrez contra, digamos, Alá ([*]admite-se que sejam seres distintos). Como seria o desenrolar da partida? Considere
1) Ambos são omniscientes: E isto significa que um sabe exatamente o que o outro está pensando, além de terem consciência de todos os lances até o [**]final do jogo.
2) Ambos possuem inteligência infinita. Talvez esta hipótese seja redundante, dado o item anterior. Porém, serve para ilustrar a situação.
3) Ambos são eternos. Mesmo assim, considere que os jogadores estejam dispostos a terminar o jogo, para evitar a possibilidade de um ficar olhando para a cara do outro indefinidamente.
*Obs: Caso as suas convicções religiosas não estejam compatíveis com esta pressuposição politeísta, admita que [***]Deus joga com as peças brancas e as pretas (algo que certamente não contraria a hipótese da omnipotência).
**Obs: Há controvérsias a este respeito.
***Obs: Ou Alá, ou Sheeva, ou a Grande Mãe Gorda ou qualquer outra coisa que satisfaça o seu critério. Para mim tanto faz pois eu sou ateu mesmo.
O importante é considerar que ambos jogadores possuam as características especificadas nos itens acima.
Perguntas. (Justifique suas respostas)

a) Há um primeiro lance?
b) O jogo termina?
c) Quem ganha? As pretas? As brancas? Empate?
d) Os jogadores são livres para escolher seus respectivos lances?
Ok, eu enviarei mais perguntas, dependendo das suas respostas.
Portanto... Pense Bem!

Tenha um Bom Dia!
AS

Resposta

Prezado AAS,

Depois de pensar muito numa resposta que me mantivesse salvo de outras perguntas, conclui que a melhor (e talvez única) saída seria não responder. Mas isso seria uma indelicadeza. Além do mais, sempre é um desafio estimulante oferecer uma resposta com conteúdo, qualquer que seja a pergunta, portanto vou tentar enrolar.

>a) Há um primeiro lance?

Não. De #1 pode-se inferir que o resultado final é previamente conhecido, portanto ou Eles devem concordar no empate ou um dEles deve abandonar na posição inicial (pois ambos são Justos).

>b) O jogo termina?
Sim.

>c) Quem ganha? As pretas? As brancas? Empate?

Admitindo que os condutores das Brancas e das Pretas não cometem erros, vamos responder à seguinte pergunta: “A posição inicial é ganha para as Brancas, para as Pretas ou está empatada?” Munidos dessa resposta, podemos aplicá-la para responder à sua pergunta.
Consultando meu banco de dados (Mega Data Base 99 ampliado), encontrei o seguinte (+ vitória das Brancas, - vitória das Pretas, = empate):

1.181 partidas de jogadores com rating de 1800 ou menos, cujos resultados são 40%+ 29%- 31%=
498 partidas de jogadores com rating entre 1801 e 1900, 34% 28% 38%
1.333 partidas de jogadores com rating entre 1901 e 2000, 36% 27% 37%
3.499 partidas de jogadores com rating entre 2001 e 2100, 34% 29% 37%
11.042 partidas de jogadores com rating entre 2101 e 2200, 36% 29% 35%
31.844 partidas de jogadores com rating entre 2201 e 2300, 35% 27% 38%
41.786 partidas de jogadores com rating entre 2301 e 2400, 32% 23% 45%
55.426 partidas de jogadores com rating entre 2401 e 2500, 29% 19% 53%
28.345 partidas de jogadores com rating entre 2501 e 2600, 26% 16% 58%
6.661 partidas de jogadores com rating entre 2601 e 2700, 27% 16% 57%
723 partidas de jogadores com rating de 2701 ou mais, 27% 15% 58%
167 partidas entre Kasparov e Karpov, 22% 5% 73%

O que podemos observar é que em intervalos de aproximadamente 100 pontos de rating, o número de empates permanece aproximadamente constante entre 1800 e 2300, depois aumenta até 2500 e novamente se estabiliza. Isso sugere que o empate é o resultado mais provável. Além disso, devemos observar que o número de vitórias das Brancas em proporção ao número de vitórias das Pretas vai aumentando desde 2000 de rating até o limite superior. No limite extremo de exatidão, podemos notar que as Pretas quase não conseguem obter vitória, e quando isso acontece (apenas 5% dos casos), podemos supor que seja meramente acidental. Isso sugere que o lance inicial efetivamente confere alguma vantagem às Brancas, por isso podemos descartar a possibilidade de zugzwang das Brancas na posição inicial. Na verdade, podemos descartar a possibilidade de zugzwang das Brancas por razões estratégicas muito mais convincentes do que os dados estatísticos.
Uma análise superficial desses dados poderia nos levar a conclusão equivocada de que existe cerca de 25% de chances de que a posição inicial seja ganhadora para as Brancas, 75% de chances de que a posição inicial esteja empatada e uma chance muito remota de que a posição inicial seja ganhadora para as Pretas. Porém, numa análise mais cuidadosa, temos que levar em conta que as vitórias das Brancas (assim como as das Pretas) podem ser ocasionadas por uma grande quantidade de erros das duas partes. Tais erros acontecem mesmo nas partidas de altíssimo nível, e são erros muito freqüentes. Como dizia Taratakower: “no Xadrez vence aquele que comete o penúltimo erro.”
Creio que a posição inicial seja muito equilibrada, e se o jogo for perfeito, o empate é o resultado único a ser esperado.

>d) Os jogadores são livres para escolher seus respectivos lances?

Não é possível responder a essa questão com base nas características que você atribui aos “seus jogadores”.
Eu já fui ateu, depois agnóstico, e acho que atualmente sou mais ou menos deísta, mas não exatamente...
Tenho a impressão de que você pode criar inimizades gratuitas se brincar com assuntos que outras pessoas podem tratar com muita seriedade. Talvez você devesse se questionar sobre isso, porque, ao contrário da questão ontológica sobre Deus, esse é um problema que está ao alcance de nossa compreensão. O que quero dizer é que optimizar a qualidade de nossas relações sociais deve ser bom, portanto, se você não acredita que existe um Criador, creia ao menos que é bom para suas relações com outras pessoas ter em mente que a maioria delas não tolera divergências de opinião em assuntos teológicos, algumas poucas podem tolerar bem as divergências de suas crenças e são muito raras as que serão capazes de tolerar um desrespeito às crenças que elas cultivaram desde a infância, e foram transmitidas de geração a geração. Pouco importa se essas crenças estão certas ou não. O importante é saber que a agressão gratuita aos dogmas que as pessoas prezam pode não produzir efeitos muito positivos.
Durante a Idade Média o ateísmo podia ser encarado como um ato de coragem, nobreza de espírito e idealismo vigoroso, porque a adesão ao ateísmo ou a qualquer fé não-católica representava uma luta contra a opressão da Igreja. Hoje a situação é bem diferente, e me parece que o ateísmo é mais uma preferência pessoal, sem qualquer valor ideológico, e tão nocivo quanto qualquer outra religião. Creio que existem instituições grandes e poderosas, dominadas por pessoas ruins, e estas ocupam a posição opressora que outrora cabia à Igreja, e são essas pessoas que encabeçam tais instituições que precisam ser combatidas. Por isso o ateísmo não tem qualquer importância, não cheira nem fede. O povo e sobretudo os intelectuais precisam reconhecer o Mal e lutar contra ele. Se o mal está na Igreja, então o ateísmo pode ser bom, na medida em que se opõe à instituição que nos causa mal. Mas atualmente não me parece que a Igreja cause algum mal ostensivo à humanidade, portanto ela não representa um inimigo efetivo, que ameace o bem estar das pessoas. Os verdadeiros grandes inimigos que enxergo são o regime cleptocrata e a manipulação da mídia. E é contra estes que devemos nos levantar, não importa se somos ateus ou cristãos.
Se você é um ateu pelo prazer de negar a existência de Deus ou pelo simples capricho de querer se mostrar diferente da maioria, acho que está no caminho errado. Por outro lado, sendo ateu ou não, se você tem bons ideais, age de acordo com sua consciência, ajuda outras pessoas e faz o bem indiscriminadamente, então certamente Deus o recompensará, independente de sua fé, porque, em última instância, crer em Deus não é rezar todos os Domingos nem ler a Bíblia todos os dias, nem tampouco se confessar regularmente ou cumprir os rituais de quaisquer religiões. Crer em Deus é ser bom; apenas isso. Todavia, nosso discernimento é tão precário que nem sempre conseguimos avaliar o que é bom, mas se ao menos formos capazes de seguir nossa consciência e fazer aquilo que nos parece bom, provavelmente estaremos sendo bons na maior parte das vezes. Isso deve bastar. Bastar para quê? Não sei. Mas deve bastar. :-)

Abração!
Piu

 
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