Oráculo


Pergunta


------Mensagem original-----
De: mauro raphael junior <mmraphael@uol.com.br>
Para: sigma.2000@sti.com.br <sigma.2000@sti.com.br>
Data: Sexta-feira, 14 de Abril de 2000 08:55
Assunto: informações

Estou fazendo um trabalho monográfico sobre crianças superdotadas que são tratadas pela escola como incompetentes,"desligadas", enfim , com problemas na aprendizagem convencional. Gostaria de saber se voces tem contato com uma escola em Alfenas, reconhecida mundialmente por seu trabalho com estas crianças.
Qualquer informação sobre este tema será bem vinda

Obrigada
Mariza Vieira Raphael
estudante de psicopedagogia


Resposta

Oi, Mariza!

Temos alguns membros muito talentosos que podem prestar depoimentos interessantes a você sobre isso. Se quiser, posso lhe fornecer o e-mail de alguns deles.
Em certos casos, as próprias crianças acabam se convencendo de que realmente são incompetentes. Mas eu não sei dizer o que é pior: se acreditarem que são incompetentes, ou se acreditarem que são brilhantes e relaxarem com os estudos. Por isso é muito importante que haja orientação adequada. Infelizmente existe um número muito pequeno de pedagogos especializados no assunto, porque entre as pessoas talentosas, a pequena fração que atua na área de pedagogia se divide entre diversas especialidades, e entre os pedagogos não tão talentosos, praticamente todos procuram por outras ramificações da disciplina. O resultado é quase um abandono do assunto.
Não conheço a escola a que você se refere. O texto está on-line, com seu e-mail, e se alguém puder ajudar, suponho que lhe escreverá. Mas independente dessa escola contar algum reconhecimento internacional, não creio que haja alguma escola no mundo capaz de atender bem às necessidades de crianças severamente talentosas. Os programas de ensino acelerado, muito comuns nos EUA e na Europa, são bastante perigosos e podem provocar sérios desajustes sociais, além de coibir a criatividade. O tema está sendo discutido em nosso foro conjunto com Colloquy Society, e tanto nossa amiga Julia Cybele Cachia, presidenta da Colloquy (sociedade para pessoas com QI acima de 141), como Dave Slater, da Prometheus Society (para pessoas com QI acima de 164) estão de acordo nesse ponto: esses programas de ensino acelerado deveriam priorizar a criatividade, a investigação e a reflexão, em lugar do consumo voraz de informação.
Tem mais um detalhe importante: a suposta ‘incompetência’ pode se apresentar em várias graduações e sob diferentes aspectos. Por exemplo: comparando o desempenho efetivo de uma pessoa com o desempenho esperado para essa pessoa; comparando o desempenho efetivo de uma pessoa com os de outras pessoas etc. Também não existe um ponto que delimita a fronteira entre a incompetência e a competência e a noção sobre o que é incompetência varia muito de pessoa para pessoa.
Na maioria dos casos acontece o seguinte: uma pessoa A reconhece que uma pessoa B é competente se B for capaz de cumprir tarefas que A considera importantes e que estejam ao alcance da compreensão de A. Se B produz idéias excessivamente originais, que extrapolam os limites de percepção de A, ou ainda se B não se interessa em cumprir tarefas consideradas valiosas por A, então A tende a qualificar B como incompetente.
O resultado disso é que uma criança com QI de 120, que encontra desafio e estímulo nas questões escolares, sentirá interesse em estudar, e vai se esforçar para obter boas notas, porque desse modo poderá se destacar e contar com o reconhecimento dos pais e professores. E esses pais e professores, cujo QI deve estar na faixa de 90 a 110, vão reconhecer tal criança como muito competente.
Por outro lado, uma criança com QI acima de 160 não verá nenhum desafio nas questões oferecidas pela escola, e terá outras prioridades ligadas à imaginação e ao raciocínio profundo, possivelmente será autodidata _ se viver num ambiente culturalmente rico em recursos _ ou, se não houver recursos nem orientação, simplesmente se afastará dos estudos, por desinteresse, desmotivação e frustração. Essa criança, em vez de se preocupar com o reconhecimento de pais e professores, buscará satisfazer suas necessidades de conhecimento e descoberta trabalhando a seu próprio ritmo, mas se isso também lhe for negado, pela escassez de recursos didáticos ou por qualquer outra razão, ela pode se retrair e permanecer à margem do sistema de ensino.
Essa situação extremamente alarmante me incomoda profundamente, porque estamos caminhando cada vez mais rapidamente para formar um mundo dirigido e dominado por pessoas ignotas e verdadeiramente incompetentes, que excluem da sociedade algumas das mentes mais brilhantes e que mais benefícios poderiam trazer a todos, desde que desfrutassem das condições necessárias ao desenvolvimento de suas potencialidades. E a mídia (sobretudo a TV) contribui muito para agravar essa situação, com paupérrimas programações culturais e vigorosos mecanismos de alienação. Já passamos pelo período em que o poder se concentrava nas mãos do clero, e isso foi ruim. Depois tivemos o período em que os militares detinham o poder, e isso também foi ruim, possivelmente pior do que o domínio do clero. Agora vivemos o pior de todos os períodos, dominado pela mídia. Nunca a cultura esteve tão desvalorizada entre as classes dominantes. Na "época do livro", dificilmente você encontrava um texto de má qualidade publicado. E quase todos que escreviam é porque tinham algo a dizer. Os dententores do poder econômico patrocinavam a Ciência e a Arte de boa qualidade, sem grande preocupação com o retorno financeiro. Atualmente os projetos de incentivo à cultura acabam contribuindo muito mais para a publicação de "cultura comercialmente promissora" do que "cultura de boa qualidade".
Pela nossa história pregressa, acho improvável que isso mude. Tenho algumas esperanças, pequenas, em Bill Gates, pelo fato de ser um homem brilhante (em algum link de http://home8.swipnet.se/~w-80790/Index.htm consta que Gates tem 160 de QI) e ao mesmo tempo muito influente e que investe no talento e na cultura. Mas tenho muitos amigos de acurado senso crítico que “descem o cacete” em Gates... E alguns deles conhecem bem melhor a vida de Gates do que eu...

Boa sorte!
Piu

Parte 2


-----Mensagem original-----
De: mauro raphael junior <mmraphael@uol.com.br>
Para: Sigma Society <sigma.2000@sti.com.br>
Data: Segunda-feira, 17 de Abril de 2000 14:00
Assunto: Re: informações

Oi, Mariza!

Como vai?


Obrigada por sua atenção.

Não seja por isso.

Concordo com suas reflexões sobre a mídia e também, como educadora, sinto seus efeitos nas crianças com as quais trabalho. Não perca as esperanças, nem todos estão dormindo, mesmo os que tem QI 90, 110 ou abaixo disto.

O problema não está na faixa de QI em que se encontram as pessoas, mas na educação que elas recebem e, sobretudo, nos valores éticos e morais que elas adotam.

Não sei o meu, e também não quero saber, mas me coloco entre as educadoras ( não sou pedagoga) talentosas e que lutam para uma escola mais criativa, estimulante, que valorize o potencial de cada um, seja ele cognitivo, artistico, das relações pessois ou qualquer outro.

Um dos pontos mais importantes que discutimos no "caso Justin Chapman" é que os programas de ensino acelerado concentram-se no desenvolvimento das habilidades cognitivas, negligenciando as outras. Isso pode "produzir" indivíduos infelizes e socialmente desajustados. O descontentamento e a frustração decorrentes disso acabam repercutindo negativamente em seu desempenho e prejudicando também suas faculdades cognitivas. O resultado é que além de "destruir" as crianças que participam de tais programas, estes falham até mesmo em sua meta principal, que em princípio era favorecer o surgimento de mentes mais produtivas. É bom saber que você preza por um ensino mais rico e diversificado. A grande maioria dos educadores tem essa consciência. Infelizmente há pesquisadores que colocam suas ambições pessoais acima disso, e me espanta que eles consigam verba para custear projetos de ensino acelerado como os que existem, onde as crianças são treinadas quase como ratos de laboratório. Isso é muito incorreto, porque somos “animais sociais” e também necessitamos da arte. Como disse Nietzsche: “o mundo seria errado se não houvesse música”. Não podemos ser privados de nossa essência, ou nos tornaremos pouco mais que máquinas.

O mundo precisa cada vez mais de gente como você, e como eu também.

Discordo. As damas devem vir primeiro. Mas reconheço e aprecio sua elegância de ter invertido a ordem.


Um grande abraço.
Mariza

Muitas felicidades pra você!
Seja sempre bem vinda!
Piu-Piu

 
.:: Sigma Society ::.
  Topo
Todos os direitos reservados