Oráculo


P
ergunta

-------Mensagem original-----
De: Pedro Bessa [mailto:pedbessa@uol.com.br]
Enviada em: Sexta-feira, 1 de Dezembro de 2000 23:06
Para: sigma.2000@sti.com.br
Assunto: sobre viagens no tempo

Caro Piu-piu,

Se eu viajo para 1983, um ano antes de ter nascido, e mato a minha mãe, quem matou a minha mãe?

Já fiz esta pergunta, em allexperts.com, para um físico, mas ele não ousou responder...

Aliás, enviei uma tradução incorreta do inglês para o português desta pergunta. Ela era "Who killed myself?" e ficou "Quem me matou?", o que não faz sentido por si só. Ignore-a, por favor.

Pedro Bessa


R
esposta



Olá, Pedro!

Tudo bem?

Reuben Fine escreveu um livro sobre Xadrez e Psicanálise em que afirma que o desempenho das mulheres no Xadrez deve-se ao fato delas raramente terem o desejo de matar o pai. Mas o caso do filho que quer matar a mãe é um assunto sobre o qual não sei opinar. J
Para falar sobre viajam no tempo, seria necessário entender o que é o tempo, mas não sabemos o que é e conhecemos pouco sobre suas propriedades. Todas as experiências que temos até hoje sugerem que o tempo seja unilateral. A nível quântico podem ocorrer fenômenos em que os resultados das experiências sugerem que o tempo vai para frente e para trás, mas a mecânica quântica não é muito digna de confiança. Uma teoria cujos resultados vão de encontro ao bom senso não pode ser levada muito a sério pelo bom senso. Eu não sei se no caso das teorias das supercordas o tempo também pode ir em duas direções, mas tanto no caso das supercordas como no caso da física de partículas, não temos contato com a “verdade” do que acontece. Apenas tentamos interpretar a “verdade” por meio de observações indiretas, tão indiretas que envolvem sistemas de longas engrenagens, e se uma delas não for consistente, o resultado final pode ser discrepante. Há muitas teorias baseadas em entes hipotéticos que nunca foram e jamais poderão ser observados diretamente (quarks e glúons), porque parte da teoria afirma que não podem existir isoladamente, e a mecânica quântica se constrói sobre hipóteses desse tipo, em que as teorias, de antemão, já estabelecem que não podemos saber certas coisas. O princípio da incerteza diz que você não pode saber, ao mesmo tempo, a posição e a quantidade de movimento de uma partícula, mesmo que essa partícula faça parte de um par simétrico em que você mede a posição de uma e a quantidade de movimento da outra. Os fundamentos da mecânica quântica estão no fato de que um elétron não espirala até cair no núcleo dos átomos, como é previsto pelas equações. Em vez disso ele se mantém numa órbita estável. A explicação que todos aceitam (depois de algumas brigas) é que o elétron não pode orbitar em qualquer lugar. Para mudar de uma órbita para a outra, ele dá um salto, em vez de fazer uma transição gradual. Foi assim que se começou a trabalhar com a possibilidade de existirem quantidades discretas indivisíveis de tempo, espaço, massa etc. Embora esse modelo explique muita coisa, a teoria como um todo apresenta muitos pontos contraditórios e os resultados das experiências podem ser interpretados de muitas maneiras alternativas, entre as quais a mecânica quântica foi erigida a partir de apenas uma dessas interpretações. No futuro alguma teoria melhor deve ser elaborada, mas por enquanto o que temos é isso (e não é pouco). E as “supostas evidências” de que o tempo pode ir pra frente e pra trás acontecem exclusivamente a nível quântico.
Na época de Aristóteles, falava-se em fenômenos sublunares e supralunares, acreditava-se que as leis vigentes abaixo da órbita da Lua eram diferentes daquelas que atuavam no cosmos. Essa crença foi demolia por Newton, mas hoje os físicos voltaram a adotar essas crenças, aplicando um determinado conjunto de leis ao mundo quântico e outras leis diferentes ao nosso mundo macroscópico. Isso me parece um descarado subterfúgio. De qualquer modo, mesmo que a mecânica quântica estivesse bem fundamentada, a Física atual diz que você não pode viajar no tempo a não ser que você seja uma partícula elementar.
Muitas pessoas já trataram do tema “viagem no tempo”, mas poucas o fizeram com seriedade e até hoje não existe nada conclusivo. As teorias sobre o universo mostram que se ele possuir massa acima de um valor crítico (cerca de 10^56g), continuará se expandindo até certo ponto e depois começará a se contrair, colapsando sobre si mesmo. Mas ao que tudo indica, quando ele se contraísse o tempo não voltaria, o tempo continuaria fluindo no mesmo sentido, enquanto o espaço diminuiria até chegar numa singularidade.
Estamos habituados com o tempo desde que nascemos, mas não sabemos o que ele é e quais são suas propriedades. Acreditamos que ele flui num sentido só, mas se fluir num sentido contrário, possivelmente será assim para todo o universo, como voltar um filme, em que não é possível fazer apenas uma personagem do filme voltar para interagir com outras. Mas se você imagina o espaço-tempo como um tubo que vai da esquerda para a direita, e se você pudesse sair do tubo (no ano 2000), voltar a um ponto anterior (1990) e entrar novamente nesse ponto do tubo, nada indica que você encontraria naquele ponto o mesmo que você encontrou quando passou lá pela primeira vez. E se voltar ao ano 1983 (ou 1990 ou qualquer outra data), sua mãe não estará mais nesse ponto, ela estará no ponto 2000 em diante, por isso é melhor você pensar em outro plano para matá-la. J Se o que passa pelo tubo é um fluxo contínuo de espaço-tempo _ que podemos substituir por água, peixes, vegetais etc. _, quando retornar você não encontrará a mesma água, nem os mesmos peixes ou vegetais. Se o que passa pelo tubo não é um fluxo contínuo, então você simplesmente pode encontrar um “nada” em 1983, porque “tudo que existe” está em 2000 e continuamente mudando de posição-tempo. O tubo é uma forma simplificada de representar o universo, uma forma que atende aos nossos propósitos imediatos de representar o que desejamos, mas na verdade acredita-se que o universo seja uma hiperesfera (ou hiperelipsóide ou hiper-hiperbolóide).
Naturalmente a única maneira de saber com segurança se uma viagem no tempo é possível e como ocorreriam as interação entre diferentes épocas, seria entendendo o que é o tempo e esboçando uma teoria de como seria possível empreender uma viagem através dele.
Espero que a essa altura você já tenha feito as pazes com sua mãe. Caso contrário, pode se inscrever em nosso curso de Xadrez e talvez isso o ajude a perceber que o verdadeiro bandido da história é seu pai. J Mas antes de encerrar, há mais algumas coisas a serem consideradas. Se você sai do tubo onde existe tempo, seu movimento será baseado em que? E se existe tempo fora do tubo, então enquanto você volta o fluxo dentro do cano prossegue... E quando você chegar a 1983, é possível que sua mãe esteja por volta de 2017 (supondo que ambos viajaram ao mesmo ritmo). Mas vamos um pouco mais longe. Vamos admitir que o tempo não é um tubo reto, mas uma rede toda entrelaçada, de modo que você pode passar várias vezes no mesmo ponto, assim quando chegar o ano 2017, sua mãe estará chegando ao mesmo ponto do tudo pelo qual passou em 1983, e se você chegar nesse ponto junto com ela, poderá reencontrá-la. Mas ela não será a mocinha de 1983. Ela será a senhora de 2017, e para todos os efeitos ela entenderá como se você tivesse sumido por 17 anos e, de repente, voltou. Ela terá gerado um filho, você terá nascido etc. Enfim, não haverá nenhum paradoxo, e nesse caso é bom você ter uma boa explicação para dar a ela, senão ela é quem vai matá-lo.

Um grande abraço!
Piu

 
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