Oráculo


P
ergunta

Parte I

-----Mensagem original-----
De: afreitas [mailto:afreitas@usp.br] Em nome de Antenor de Freitas Filho
Enviada em: sábado, 12 de agosto de 2000 15:47
Para: sigma.2000@sti.com.br
Assunto: Divagação!
Olá Melão,

Outro dia estava lendo uma carta enviada para ser respondiada pelo Oráculo, onde vc tem a impressão, acertada na minha opinião, que a pessoa que fazia a pergunta estava mais se exibimdo que querendo saber uma resposta para a dúvida dela, espero que não seja o caso agora com essa mensagem!

Eu tenho alguma dificuldade em ter muitos amigos, ou pelo menos alguns que tenham interesses paracidos com os meus; ai entrei para fazer pós-graduação e o ambiente melhorou um pouco, pelo menos no começo, agora depois de alguns anos quando ?a ficha começa a cair? e as coisas começam a ficar mais claras, a impressão que se tem é que 80% do seu tempo aqui dentro passa-se fazendo algum trabalho "burrocratico" , para fazer meu doutorado,p. ex., perderei pelo menos dois dos quatro anos mínimos necessários para terminá-lo. Mas não era bem esse assunto que estava querendo te falar - foi só para desabafar um pouco, me desculpe se o faço perder tempo lendo estas bobagens- foi então que encontrei as sociedades de HIQ, e a esperança renasceu no sentido de se começar a fazer coisas interessantes que nem ousaria comentar com meu orientador; e olhe que ele tem ADD, ou seja um QI altíssimo, estou tentando montar um clube de pessoas que gostem de robôs, dotá-los de alguns sentidos humanos tais como visão, fala e principalmente inteligência, no sentido de saberem como resolver problemas para os quais não foram programados para saberem a solução, mas o sonho maior seria conseguir uma ?interface? entre nossa mente com um computador no sentido de ter na tela do micro uma imagem do que estamos pensando, não tendo a necessidade de tentar traduzir aquilo em palavras; e de quebra imortalizar todos que tenham interesse em tal experiência no sentido de ter todos os dados gravados em um disco rígido e poder fazer com que outras pessoas possam conversar com ele/a mesmo quando este já tivesse nos deixado, além do que estes dados do disco poderiam continuar se "evoluindo" indepente do ser original que deixou as informações originais; minha nossa agora eu exagerei mesmo!! Em todo caso quando estou sonhando é com isso que perco meu tempo, será que teria mais alguem na sociedade que tenha interesses parecidos com esses?! Parece que não tenho muito poder de síntese não é, era só isso que estava interessado em saber, se teria mais alguém que se intersse por imortalidade, pelo menos do pensamento, não seria igual ao do livro escrito pela pessoa mas o próprio pensamento dela ainda vivo entre nós.


R
esposta

Grande Antenor!

Tudo bem?

A Mariangel me enviou outros e-mails depois daquele. Cerca de 10 ao todo. Ela parece uma pessoa simpática, mas naquela mensagem me pareceu claro que realmente a intenção dela era aquela, pois da maneira como ela descreve os termos utilizados, deixa transparecer que não acredita que a pessoa a quem ela dirigiu a pergunta saberá sequer o significado daquelas expressões, e muito menos a resposta à sua pergunta. Se no seu caso a intenção é a mesma que a dela, isso não sei dizer, mas pelo menos você está sendo mais sutil. ;-)

Acho muito interessante sua idéia de construir robôs pensantes. Digo “interessante” porque inicialmente o perigo será bem pequeno, já que eles serão pouco “inteligentes”. Mas à medida em que forem ganhando autonomia e se tornando capazes de tomar decisões próprias, fica difícil prever o que eles vão fazer conosco. Basta analisar a maneira como tratamos os animais para ter uma idéia do que pode nos acontecer. Acho que qualquer especulação nesse sentido, não conduz a lugar algum. Por isso vamos tentar encaminhar o assunto de modo que cheguemos a algum lugar.
A impressão que tenho é de que mal começamos a engatinhar nesse campo. Pelos softwares de tradução, pelos programas que ministram sessões de Psicanálise e pelos programas para jogar Xadrez, podemos perceber o quão pouco sabemos sobre como atua o pensamento. Um programa de Xadrez, por exemplo, precisa calcular 1 milhão de lances por segundo para conseguir equilibrar a força de jogo com um grande mestre humano, que calcula somente 1 ou 2 lances por segundo. Além disso, o programa não entende nada do que está fazendo. Ele elege o melhor lance pela “força bruta”, comparando os resultados de numerosas variantes, selecionadas com base em critérios extremamente rudimentares. Se um programa de Xadrez chegar a uma posição semelhante a outra contida em seu banco de dados, ele será incapaz de compará-las e tirar proveito de seu “conhecimento”. Vejamos um exemplo: o Hiarcs 7.32 é uma das engines mais sofisticadas que existe. Na maior parte das vezes, é capaz de avaliar estrategicamente uma posição com tanta acurácia quanto um grande mestre. É um dos programas que ‘aprende’ com as próprias partidas, incorporando à sua engine as valorações que vai fazendo, tendo em conta todo o histórico pregresso e o transcurso posterior das partidas, e usa essas informações nas análises de outras partidas. Em muitos casos ele é capaz de evitar cometer o mesmo erro quando se depara pela segunda vez com a mesma posição, o que já é algo bastante representativo em comparação a qualquer outra máquina moderna, mas ainda é muito pouco em comparação à capacidade de raciocínio de um cachorro ou de um rato.
Pois bem, o Hiarcs 7.32 é incapaz de concluir que se no diagrama 1 as Brancas dão mate em 16 lances, no diagrama 2 também haverá o mesmo mate, pois a mudança na posição do Rei branco é irrelevante. E não apenas o Hiarcs, mas também o Fritz 6, o Junior 6 e qualquer outro software de ponta. Nenhum deles é capaz de entender algo que nos parece tão “óbvio”
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Os softwares de Xadrez e de tradução são importantes indicadores do estágio em que se encontram os estudos sobre inteligência artificial, e eles revelam que já é possível simular com eficiência, por meio da “força bruta”, a capacidade de pensar sobre processos muito simples. Mas à medida em que esses processos vão se tornando mais complexos, os programas começam a falhar sistematicamente. O que os programas fazem atualmente é processar instruções com rapidez. Fazem isso melhor do que os mais velozes calculistas mentais, sorobanistas ou enxadristas. Porém, coloque os computadores diante de uma situação em que seja preciso improvisar, e eles serão incapazes de colocar uma caixa em cima da outra para conseguir alcançar um cacho de bananas _ coisa que chimpanzés e gorilas fazem sem ter que meditar muito.
Na vida as decisões são tomadas aproximadamente com base em parâmetros similares aos que usamos para decidir qual o melhor lance numa posição de Xadrez. A diferença principal é que no Xadrez existe um número discreto de variáveis a serem consideradas, e a posição final de cada variante pode ser valorada assumindo que muitos parâmetros subjetivos podem ser quantificados, de modo a estabelecer uma ordem de prioridades a serem seguidas, e com isso é possível acertar nas decisões recorrendo a um pequeno número de informações sobre os princípios gerais do jogo. Pode-se dizer, por exemplo, que uma Dama vale 88, uma Torre vale 45, um Bispo vale 32, um Cavalo vale 30 e um Peão vale 10 (mais grosseiramente, pode-se dizer que os valores são, respectivamente: 9, 5, 3, 3, 1). Além disso pode-se dizer que esses valores devem ir aumentando à medida em que as peças forem saindo do tabuleiro, a fim de “ensinar” aos programas a “Teoria da Simplificação”. Para tanto, basta dizer ao programa que o valor de cada peça deve ser multiplicado por 800 e dividido por x, onde “x” representa a soma dos valores das peças presentes no tabuleiro + 400. Pode-se também atribuir algo como 1 ponto (0,1 Peão) por casa dominada, 0,1 ponto por Peão central etc., e assim obter uma estimativa das vantagens estáticas (espaço) e dinâmicas (mobilidade das peças) em cada posição. Mas ainda existem problemas técnicos extremamente difíceis de serem resolvidos, como avaliar a segurança dos Reis ou a importância justa de uma estrutura de Peões defeituosa. Naturalmente os primeiros programas de Xadrez eram muito ruins, e depois de 3 décadas temos acumulado alguma experiência, que permitiu compilar programas “sábios e lentos” (Hiarcs, Genius, M-Chess Pro) tão bons como os “tolos e velozes” (Fritz, Nimzo). Os “sábios e lentos” assemelham-se mais ao jogador humano, na aparência dos lances, mas ainda diferem muito na essência. Um programa veloz calcula 500.000 a 2.000.000 de lances por segundo, enquanto um programa lento calcula entre 10.000 e 50.000, portanto, mesmo os programas lentos e sábios são muito mais rápidos e mais tolos que os humanos.
A única maneira de saber se foram “ensinados” bons conceitos a um programa é colocando-o para jogar com humanos e com outros programas, e fazendo uma estatística dos resultados. Com isso pode-se escolher algumas poucas variáveis e ir mudando-as gradualmente, depois comparando o desempenho do programa antes e depois da mudança. Se o desempenho melhorar, as mudanças são mantidas, caso contrário, restabelecemos os parâmetros antigos. Por exemplo, em vez de dizer que cada Peão central vale 1, podemos dizer que vale 1,15 e verificar se isso aumenta ou diminui a performance do programa.
Como está claro, a tarefa é absurdamente laboriosa e dispendiosa, portanto requer muito tempo, uma equipe numerosa e pesados investimentos. Não é como inventar o Cálculo, a Teoria da Relatividade ou o Teorema de Pitágoras, em que basta dispor de uma vareta e um chão arenoso para rabiscar, ou no máximo uma folha de papel, uma caneta e algumas ferramentas matemáticas adequadas, um sistema de símbolos conveniente e coisas do gênero. Mas os problemas que surgem nas pesquisas sobre I.A. não são tão simples. Isso já torna extremamente difícil e retarda imensamente o desenvolvimento de programas destinados a uma finalidade muito específica, como “um programa que jogue bem Xadrez”, ou “um bom software de tradução”, e quando se pretende algo mais ambicioso, como um programa capaz de pensar sobre qualquer assunto, capaz de aprender sobre qualquer assunto, ou capaz de tomar decisões, então a tarefa se torna praticamente impossível em nosso atual estágio de desenvolvimento tecnológico, porque na vida existe uma variedade muito maior de informações a serem consideradas na hora de tomar uma decisão, portanto seria preciso um tempo imenso para reunir todos os dados relevantes e programar um robô capaz de diferenciar uma mulher bonita e que faria sucesso como modelo, de uma mulher que não se enquadra nos padrões de beleza vigentes em nossa sociedade. E quando falamos em tempo imenso, estamos nos referindo também a grandes investimentos e numerosas equipes. Creio que a tarefa seria muitíssimo mais árdua do que o projeto Manhattan, que consumiu mais de 1 bilhão de dólares na década de 1940, com vários pesquisadores de ponta trabalhando em conjunto ao longo de alguns anos. Penso que o máximo que se pode fazer, por enquanto, é robôs altamente especializados, capazes de tarefas simples de raciocínio convergente.
Seria extremamente difícil elaborar um programa que lesse e interpretasse um texto simples, do tipo: “Vá ao mercado comprar guaraná. Se não tiver, traga coca-cola.” Para que tal programa pudesse lidar com muitas frases que não tivessem sido previamente incluídas em seu banco de dados, ele teria que simular muito bem o “entendimento”, e mesmo assim cometeria muitos erros graves, que os humanos não cometem. O interessante é que depois de dar o primeiro passo, os passos seguintes seriam mais fáceis. Por exemplo: daqui a alguns séculos, depois que alguém (ou “alguéns” J) conceber um programa com as características acima, será relativamente fácil aprimorá-lo para que, apenas dizendo “O guaraná está acabando.” E a partir disso o próprio programa conclua que precisa ir ao mercado, e que se não encontrar guaraná pode trazer coca-cola ou então procurar guaraná em outro mercado, e, diante desse dilema, o programa será capaz de tomar a iniciativa de nos perguntar: “O senhor quer que eu vá ao mercado buscar? E se não tiver guaraná, quer que eu traga coca-cola ou prefere que eu vá a outro mercado?” Enfim, a dificuldade reside nos fundamentos do programa. Os passos seguintes, de rebuscá-lo com recursos mais sofisticados, seriam comparativamente fáceis.
Esse quadro é ao mesmo tempo terrível e estimulante! Terrível porque para todos os lados que olhamos, tudo o que vemos é um vasto terreno estéril. E estimulante porque praticamente tudo no campo da I.A. ainda está por ser descoberto. Antes de colher os primeiros frutos, ainda é preciso adubar a terra, inseminá-la, cultivá-la... Cuidar de muitas etapas antes de ver algum resultado concreto. Creio que estamos tão distantes de um robô inteligente quanto os antigos gregos estavam de nossa tecnologia atual. O fato é que não dispomos de ferramentas adequadas e não acumulamos conhecimentos suficientes. Temos apenas imaginação e avidez pela descoberta, e isso deve nos conduzir aos nossos objetivos, mas não tão cedo...
Bom, o que quero dizer com tudo isso é que considero sua intenção muito interessante, ambiciosa e quase impossível de realizar no momento. E vou ficar muito feliz se você mostrar que estou sendo pessimista e construir algo capaz de discernir visualmente (sem analisar quimicamente) uma laranja real de outra de plástico, e repita isso para qualquer outra fruta, e além disso possa chegar a outras conclusões corretas sobre questões variadas. Um programa que leia um problema do tipo: “João tinha dois ovos e seu irmão quebrou um deles. Com quantos ovos inteiros João ficou?” e seja capaz de dar a resposta correta, seria um grande passo! Mas acho que nem isso é possível nas próximas décadas. Talvez seja possível elaborar um programa de tradução tão eficiente em sua tarefa como os programas de Xadrez são na deles. Isso já seria um avanço muito importante, embora não representasse mais do que uma nova gota d’água de conhecimento em meio ao oceano do desconhecido.
Até o parágrafo acima, eu tinha respondido antes de nos encontrarmos pessoalmente e de você me falar sobre os detalhes de sua idéia, que envolve transmitir informação de um cérebro humano para uma máquina (um HD, DVD ou similar). Eu considero que o texto acima está inacabado, mas como ia seguindo um rumo meio diferente, vamos ver se agora abordamos o tema que você propôs.
A idéia de preservar as informações que uma pessoa vivenciou ao longo de sua existência é fascinante, principalmente se houver algum meio de processar essas informações num software (na falta de algo melhor) que simule o pensamento. Eu não sei dizer se algum dia será possível construir uma máquina dotada de criatividade e emoção, mas sabemos que no momento nem sequer sonhamos com os meios que permitam compilar um programa capaz de articular idéias básicas. Portanto, a impressão que tenho é de que essas idéias não podem ser encaradas como um “projeto”, mas como um interessante tema para um texto de ficção. Eu coloquei uma descrição resumida sobre a máquina da invisibilidade na seção dos Sigma Testes, em forma de problema. Creio que uma versão rudimentar da máquina da invisibilidade, capaz de funcionar em circunstâncias especiais, seja um projeto muito mais modesto e ainda assim inviável nos próximos séculos. Já a idéia de transmitir dados de um cérebro para um HD ou de um HD para um cérebro, isso eu considero muito distante. Mas o que realmente fascina nisso é que me parece viável, porque a conversão de uma linguagem na outra não seria impossível (ao menos até onde posso entender), já que ambos (cérebro e máquina) trabalham à base de pulsos elétricos. Eu não sei nada sobre neurologia, por isso não posso me arriscar nesse campo, pois fatalmente diria grandes sandices. Mas espero que outras pessoas com os mesmos interesses que você lhe escrevam, e que também se associem ao seu clube de pessoas que gostam de robôs.

Um grande abraço!
Piu

Parte II

Pergunta


-----Mensagem original-----
De: afreitas [mailto:afreitas@usp.br] Em nome de Antenor de Freitas Filho
Enviada em: quinta-feira, 31 de agosto de 2000 05:05
Para: sigma.2000@sti.com.br
Assunto: Aumento do arquivo sobre piadas!

(Mensagem editada, com exclusão das piadas, que serão publicadas na seção de humor)

Olá, Melão

Obrigado pela resposta no Oráculo, muito instrutiva e estimulante, quanto à máquina ser mais inteligente que nós tenho uma resalva que talvez nos deixe um pouco mais ?confortáveis?, da mesma forma que pessoas como vc e eu não maltratamos os animais quem sabe poderemos ter a mesma sorte de não sermos maltratados pelas máquinas, e quanto ao atraso tecnológico da nossa civilização estar tão longe do dia
em que poderemos ver tais máquinas quanto nosso atual estágio em relação ao antigo Egito (digamos 4.000 anos atrás), acredito que certamente não levaremos tanto tempo assim pois há um fato chamado ?espiral do conhecimento?, algo como quanto mais vc sobe a montanha do conhecimento mais longe vc enxerga, quanto mais conhecimento vc adquire mais rápido vc descobre outros, creio que até o final do próximo século deveremos ter ?andróides ? bastante razoáveis ! espero.
Um abraço.


Resposta


Olá, Antenor!!

Tudo bem?

Não sei bem se a minha resposta foi instrutiva, conforme você disse. Espero que não esteja com esse papo pra tentar me seduzir ;-), porque sou um Piu-Piu macho, com um pauzinho (hífen) no meio dos “Piu”. O pouco que conheço sobre Inteligência Artificial está ligado à aplicação da mesma aos softwares de Xadrez. De certo modo, sou um “usuário” de Inteligência Artificial, tanto com softwares de Xadrez como softwares de Tradução, mas pelo fato de pesquisar com certa profundidade as diferentes engines de Xadrez (Fritz, Hiarcs, Junior, Craftty, Nimzo etc.), acabo tomando conhecimento sobre alguns processos que talvez possam ser de algum interesse. Em 1998, pela Escola Virtual de Xadrez, recebi um e-mail de um rapaz que precisa de alguma orientação sobre como elaborar a parte heurística de um programa de Xadrez que fosse capaz de vencer alguém que tivesse acabado de aprender a mover as peças. Eu não achava que estivesse habilitado para isso, mas fiz o que pude, atribuindo algumas valorações, meio que “chutadas”, sobre a importância de dominar o centro, linhas abertas etc., e ele me respondeu agradecendo muito, demonstrando grande entusiasmo e dando a impressão de que era exatamente o que ele procurava. No fim das contas, tive a impressão de que ele buscava apenas algumas informações sobre Xadrez, porque sobre I.A. propriamente, eu não conheceria o bastante nem sequer para entender um diálogo “light” entre estudantes nessa área.
Quanto à questão dos animais, para nosso referencial julgamos que não os maltratamos, mas não creio que algum de nós gostaria de trocar de posição com eles. Note que eles vivem sem liberdade, quase exclusivamente para nosso prazer e diversão. Podemos gostar deles, mas nem por isso lhes oferecemos o que talvez seria realmente o essencial a eles.
Quanto à espiral do conhecimento, de fato parece representar satisfatoriamente a evolução da Ciência e da Tecnologia. Um exemplo interessante seria o Evolucionismo, que de Lamarc passou por Darwin e Wallace e agora parece estar resgatando algumas idéias de Lamarc, como a segunda volta da espiral que passa sobre o antigo ponto, mas com uma visão mais elevada. Isso acontece em muitos casos, mas segue caminhos inteiramente distintos, com saltos ou quedas, desvios etc. Especialmente no caso da I.A., acredito que o desenvolvimento precisará de um salto para prosseguir, porque o tamanho dos chips já está chegando perto de atingir seus limites físicos. O que quero dizer é que não sei se algum dia será possível construir um processador com 1 THz ou um HD com 100THz. Se isso for possível, deve envolver uma tecnologia inteiramente nova e, portanto, representará um “salto” fora da evolução suave e contínua da espiral do conhecimento.
Quanto aos andróides, esse é um tema delicado! Um membro da Prometheus, chamado Graddy Towers, que faleceu nesse ano, escreveu um artigo muito interessante sobre a miscigenação entre homens e macacos. Ele considera a possibilidade de fazer experiências cruzando homens com chimpanzés e/ou gorilas, e cita que o número semelhante de cromossomos é um fator que favorece esse cruzamento, como acontece no caso de cruzar cavalos com jumentos, gerando mulas. Mas para conseguir o aval necessário a promover tais experimentos, seria preciso persuadir a Igreja e o Governo, e para tanto também seria preciso persuadir o povo. Em outras palavras, isso só seria possível se houvesse algum indício de que tais experimentos nos levariam a encontrar a cura para a AIDS ou algo assim, do mesmo modo que a NASA precisou apelar para a possibilidade de existência de vida (macroscópica) em Marte para conseguir fundos financeiros destinados às missões Viking, Mariner e outras... É a meta “elevada” (agradar aos olhos do povo e da mídia) que permite arrecadar fundos para o projeto mais “vulgar” (expandir os horizontes de nosso conhecimento).
Construir um andróide talvez já seja possível nos dias de hoje. Depende do que se entender por “andróide”. Se anexar um braço mecânico, capaz de responder aos impulsos elétricos adequados e corresponder com os mesmos movimentos de um braço orgânico, se isso já puder ser considerado um andróide, então já dispomos dessa tecnologia. Mas bem diferente disso é, conforme você disse, colocar um cérebro dentro de um conjunto de engrenagens, ligado a miríades de eletrodos, e esse cérebro comandar todo um corpo mecânico. Nesse caso, não bastaria que dispuséssemos de tecnologia suficiente, mas além disso seria necessário vencer a barreira dos dogmas religiosos e as tradições sociais. Se bem que, depois de atingir o estágio tecnológico adequado, a tarefa de driblar as restrições da Igreja e da Sociedade é a parte mais fácil. Contudo, existe algo mais grave e mais importante do que os preconceitos religiosos e sociais. É a Ética. E, sinceramente, eu não sei se é ético empreender algum esforço no sentido de preservar um cérebro em tais condições. Eu, por exemplo, acho que não gostaria de ter meu cérebro trabalhando num corpo mecânico, um “corpo” incapaz de se satisfazer sexualmente, gastronomicamente etc.
Enfim, no que diz respeito às limitações tecnológicas, creio que vamos precisar de muito tempo até que possamos enlatar um cérebro e mantê-lo ativo. Você deve estar mais apto do que eu para estimar o prazo para isso, pois está bem familiarizado com o ritmo em que a área está se desenvolvendo. Se serão 200 ou 2000 anos, isso realmente não sei dizer. Mas nas próximas décadas, como você supõe, considero bem pouco provável.
Mas basicamente só divergimos no ponto em que você diz “até o final do próximo século deveremos ter andróides bastante razoáveis! espero.” Talvez tenhamos andróides, de fato, mas não sei se “espero” por isso com entusiasmo ou com medo. É comum o pesquisador estar disposto a sacrificar tudo para atingir o conhecimento almejado, até a própria vida, até a vida de toda a humanidade e até mesmo a existência do Universo. Outro dia uma moça (Patrícia Rodrigues) me falou sobre um artigo publicado em Nature, que alude a uma experiência cujos detalhes ela não descreveu, mas deu a entender que implicava na construção de um gigantesco acelerador de partículas para produzir anti-matéria auto-replicante (ela citou os nomes das partículas, mas não era nada que tenha ouvido falar antes). :-\ Como se pode concluir, em tal experiência haveria o risco de que todo o Universo fosse convertido em energia. Por isso alguns pesquisadores estavam renunciando ao projeto e expondo os motivos ao Governo e às empresas que o financiariam. O risco de destruir o Universo com um relativamente pequenino equipamento é um tanto assustador. No caso de construir andróides, os riscos me parecem consideravelmente grandes, porque serão diferentes de nós, e as criaturas são naturalmente sectárias, tendendo a preferir seus semelhantes. O racismo, o patriotismo, as preferências por time de futebol ou por seitas religiosas, são algumas manifestações dessa natureza sectária. E nada nos garante que esses andróides, de uma hora para outra, não passariam a desenvolver uma ideologia nazista e trabalhar pelo nosso extermínio, alegando (com justiça) que somos nocivos à natureza e depredamos o planeta. E usariam isso como pretexto para generalizar a idéia de que “todo humano é ruim, nocivo ao planeta, e precisa ser eliminado”.
Pois é, e eu não gostaria de ver meu sonho se transformando em pesadelo. Robôs já me parecem consideravelmente perigosos, tomando por referência o que eles fazem no Xadrez e nas traduções, ou seja: ao traduzir do inglês para o português e depois traduzir o resultado novamente para o inglês, mudam o sentido de muitas frases. No caso do Xadrez, eles muitas vezes “acreditam” estar seguindo caminhos corretos e seguros, que para nós são evidentemente errados e podemos demonstrar isso, e o pior é que eles são “incapazes” de entender que estão errados. Isso já me assusta. E muito mais assustador é pensar num andróide, com paixões e pensamentos próprios, não um mero sistema cibernético que segue instruções, mas um cérebro com vontade própria e um “poder” que pode fugir ao nosso controle. Não sou um conservador, muito pelo contrário, mas tento considerar quais podem ser as conseqüências positivas e negativas. A possibilidade de construir andróides e o fato de que isso está se tornando cada vez mais próximo de ser uma realidade cotidiana, de algum modo me causa desconforto e preocupação, mas como não há nada que se possa fazer contra nem a favor, pois há milhões de pessoas envolvidas e bilhões de pessoas alheias ao que acontece, então simplesmente fico aguardando... E torcendo para que essas coisas demorem muito tempo para acontecer. :-)

Um grande abraço!
Piu

 
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