Oráculo


P
ergunta

-------Mensagem original-----
De: mariangel [mailto:mariangel@bondinho.com.br]
Enviada em: sábado, 5 de agosto de 2000 16:08
Para: sigma.2000@sti.com.br
Assunto: Reorganização Neurológica

Olá!

Quando uma criança está em desenvolvimento e ela não engatinha ela estará pulando uma fase (não maturará eficazmente o mesencéfalo, ou seja, o cérebo primitivo) e mais tarde ela poderá ter a vir um problema de escrita ou lateralidade etc.. Temple Fay, descobriu que através de movimentos padronizados (os que a criança faz ao nascer e continua fazendo ao longo de seu desenvolvimento..ex..o balançar pernas e braços em padrão homolateral e cruzado, rolar, engatinharetc.. ..esses movimentos estariam preparando-a
para o andar, falar e posteriormente o pensar..). A pergunta é: Como pode através desses movimentos haver a maturação do SNC? E pq?

Obrigada!

Mariangel



Resposta

Olá!

Tudo bem?

Eu não tenho nenhuma formação acadêmica, por isso é meio difícil responder a certas questões. Quando se trata de Xadrez, Física ou Astronomia _ áreas que adquiri algum conhecimento como autodidata _, ou quando se trata de qualquer assunto sobre o qual se possa chegar a uma solução por meio da reflexão, então dá pra especular um pouco e tentar oferecer uma resposta. Mas nesse caso estamos tratando de Neurologia, que foge completamente às áreas nas quais eu costumo me aventurar. Mas naturalmente eu não vou deixá-la sem uma resposta. J Todavia, esclareço que estou apenas tateando no escuro, sobre um assunto que desconheço. Vou tentar me conduzir pelo bom-senso e eventualmente apelar para a intuição.
Antes de começar, eu quero dizer uma coisa: há pessoas que nos escrevem porque buscam respostas a trabalhos escolares, muitas vezes sobre administração ou contabilidade, trabalhos de segundo grau, matemática, geografia etc. Geralmente eu não respondo a tais perguntas. No seu caso é diferente. Se eu não lhe respondesse, seria porque não estou qualificado para isso. De fato eu não estou, mas vamos brincar um pouco... J Bom, também há pessoas que escrevem para essa seção porque buscam esclarecimento sobre algum assunto, mas como não o encontram em outros lugares, usam nosso Oráculo como ‘último recurso’. Outras nos escrevem porque querem se divertir, trocar mensagens, coisas assim. Outras porque querem me testar, outras porque querem exibir conhecimento sobre um ou outro assunto. Enfim, temos gente de todo tipo por aqui, e meu “instinto selvagem e cruel” me diz que você é uma combinação dos dois últimos tipos citados. J Eu espero estar errado sobre isso e também espero que você não se sinta ofendida.
Bom, minha querida, você deve estar buscando uma descrição dos processos fisiológicos envolvidos, porque está bem claro que você é uma estudante na área de Biológicas. Se você realmente deseja obter tal resposta, pode simplesmente consultar um professor ou mesmo um livro, porque aparentemente essa é uma questão sem grandes mistérios e não exige nenhum esforço de abstração para compreender os processos envolvidos. Normalmente a seção Oráculo aborda assuntos que exigem não apenas conhecimento, mas uma boa dose de imaginação, além de raciocínio lógico bem desenvolvido. E é mais ou menos o que vamos tentar fazer com sua pergunta. Vamos pensar um pouco e ver se podemos descobrir alguma coisa.
Comecemos contestando uma de suas proposições: você diz que a criança que não engatinha pode futuramente manifestar dificuldades motoras e cinestésicas. Isso me parece improvável. Eu acredito que a criança que não engatinha já está manifestando deficiências psico-motoras, que se não forem devidamente tratadas, podem se agravar. O tratamento deve consistir em estimular a prática de exercícios pediátricos adequados, do tipo manipular objetos, e encorajar a criança para que ela tente engatinhar em direção de algo que lhe desperte o interesse (um brinquedo sonoro ou luminoso, por exemplo).
Na criança com motricidade e inteligência normais ou supranormais, os movimentos devem surgir naturalmente, sem necessidade de tais estímulos, enquanto as crianças propensas a manifestar inaptidão física ou mental tendem a apresentar indícios de tais dificuldades desde a mais tenra idade. O que digo é que o problema não surge porque a criança não engatinhou, mas o fato dela não engatinhar é um sintoma de que o problema já está presente e requer cuidados especiais.
A maneira como as atividades motoras atuam no desenvolvimento do sistema nervoso central (que você carinhosamente chama de “SNC”) deve estar estreitamente relacionada à memória cinestésica. Você certamente já assistiu, no circo ou na TV, àqueles homens que atiram facas numa roda giratória na qual está amarrada uma mulher. Depois ele é vendado e repete a proeza, sem acertar nenhuma faca na moça, deixando toda a platéia perplexa com sua destreza. Isso acontece porque o corpo dele está condicionado pela memória cinestésica. Eu pratiquei artes marciais durante algum tempo (uns 12 anos), e aprendi um pouco sobre o lançamento de shuriken e shaken (são aquelas estrelas dos filmes de ninja). Depois de algum tempo de prática, quando você lança um shuriken tanto faz você estar com os olhos abertos ou fechados. O corpo se condiciona a repetir o movimento, quase num gesto involuntário, e isso é feito com a mesma facilidade se você vê o alvo ou não.
Uma criança que começa a engatinhar precisa pensar em cada movimento que vai fazer. Isso é um esforço considerável, no início, mas com o passar do tempo ela vai se tornando cada vez mais hábil, até começar a andar sobre duas pernas, em princípio com dificuldade e também premeditando cada movimento, mas logo vai ganhando desenvoltura e esses movimentos (caminhar, comer, girar a cabeça para o lado etc.) vão se tornando espontâneos.
Existe uma doença, cujo nome não me recordo, que priva a pessoa de todos os movimentos porque danifica seriamente (ou totalmente) a cinestesia. Assisti a uma matéria sobre isso, exibida há alguns meses no Discovery, e creio que se possa encontrar algo sobre o assunto no site: www.discovery.com. Nesse documentário, mostraram um homem com cerca de 40 anos que estava completamente paralisado, e ele re-aprendeu a engatinhar, depois a andar, a pegar um copo e levar água até a boca, a escovar os dentes etc. Ele só conseguiu isso porque era um homem muito perspicaz e determinado, pois teve que aprender em condições muito mais difíceis do que uma criança. No caso dele, a memória cinestésica não tinha como atuar, pois sua cinestesia era nula. Então ele teve que emular a memória cinestésica, usando sua visão e seus outros sentidos. No caso da criança, a coisa é muito mais simples, porque todos os movimentos que ela faz ficam registrados na memória que cuida especialmente da cinestesia, e conforme as informações sobre esses movimentos vão se acumulando, a motricidade vai melhorando de qualidade. E não apenas isso, mas também os músculos e tendões tornam-se mais eficientes. Veja o exemplo de um ginasta olímpico. Para fazer uma série de saltos mortais ou flip-flops não basta saber como fazer o movimento. É preciso ter condicionamento adequado também. É preciso força, flexibilidade e coordenação, e isso se adquire por meio de treinamento regular, não pelo aprendizado no sentido restrito da palavra, ou seja: se uma pessoa aprende a dar salto mortal duplo, mas fica vários anos sem praticá-los, é bem provável que as informações cinestésicas permaneçam frescas em sua memória, mas o corpo terá perdido agilidade devido à falta de treino, e embora a pessoa saiba como fazer, ela não será capaz de fazer. Portanto, quando a criança engatinha e manipula objetos, ela vai se habituando a usar uma das mãos com mais freqüência que a outra, vai se aprimorando em tarefas diversas (segurar um objeto com firmeza, colocar comida na boca etc.). Isso não é um fator determinante na lateralidade, pois creio que sejam os genes que definem se uma pessoa será destra ou canhota. Mas esses hábitos vão se incorporando gradualmente à memória cinestésica e acentuando o conhecimento do próprio corpo, além de aperfeiçoar a coordenação motora e tonificar os músculos necessários para cada tarefa. Com o passar dos anos, as crianças mais ativas saberão diferenciar mais facilmente um lado do outro, serão mais ágeis etc., enquanto aquelas que tiveram vida mais sedentária podem encontrar dificuldades, porque não armazenaram volume suficiente de informação cinestésica e não exercitaram devidamente o corpo.
Com a escrita ocorre basicamente a mesma coisa. Soma-se a isso o fato de que, na maioria das vezes, as crianças que apresentam dificuldades motoras também apresentam deficiências mentais (algumas ligeiras, outras mais acentuadas, outras não apresentam nenhuma deficiência). Por isso é que para tais crianças é mais custoso todo o processo de aprendizagem, o que se faz notar na escrita, na fala etc. Existem exceções, obviamente, de crianças com dificuldades motoras e dificuldades com a linguagem, mas que são muito inteligentes e também existem crianças portadoras de deficiências mentais, mas com excelente coordenação motora.
Outro comentário importante: cada movimento que fazemos é constituído por um conjunto de outros movimentos mais elementares. Pela maneira de andar, pode-se reconhecer prontamente uma pessoa descoordenada, um bailarino ou um atleta. A pessoa com baixa coordenação anda jogando os membros desorganizadamente, o bailarino anda com graça e leveza, o atleta anda com determinação e segurança. Essas diferenças são o resultado do histórico da memória cinestésica combinada à aptidão natural de cada um. Antes de aprender a dar saltos acrobáticos é necessário aprender a andar, e antes de andar é preciso engatinhar, e antes de engatinhar é preciso aprender uma série de outros movimentos mais básicos. Se os conhecimentos mais fundamentais forem bem assimilados, então os outros movimentos mais complexos também serão desenvolvidos com mais facilidade e maior destreza.
Bom, minha querida, eu estou satisfeito comigo mesmo. Por alguns momentos eu achei que fosse ter que enrolar você, em vez de responder à sua pergunta. J Mas sinto que resposta ficou mais ou menos pertinente. De qualquer modo, sua pergunta ficará aberta às opiniões de outros membros, que eventualmente possam lançar alguma luz sobre o problema. Se você quiser enviar a pergunta em inglês (e outros idiomas), podemos postá-la em nosso eGroup e com isso aumentar as chances de você receber uma resposta de um pesquisador nessa área, porque cerca de metade dos nossos membros não fala português.

Até mais!
Piu

 
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